sexta-feira, 26 de setembro de 2014

- " E se o Brasil tivesse sido colonizado pela Holanda ? "



Autoria de Túlio Vilela ( formado em história pela USP, é professor da rede pública do estado de São Paulo e um dos autores do livro Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

Eis uma pergunta que já passou pela cabeça de muita gente. No entanto, para a História não existe o "se", mas apenas o que aconteceu. Para os historiadores, não existe sentido em especular a respeito de "realidades alternativas" ou de "universos paralelos", eles preferem deixar essa tarefa para os escritores de ficção científica.
Em todo caso, esse tipo de pergunta demonstra que existe um interesse popular pelo tema da presença holandesa no Brasil. Afinal, se um episódio do passado é capaz de estimular a imaginação das pessoas, é porque esse episódio ainda desperta paixões no presente.


Para sairmos do campo da especulação e partirmos para o da história propriamente dita, vamos reformular a pergunta : "As colônias holandesas se tornaram países mais desenvolvidos que o Brasil, uma ex-colônia portuguesa?" A resposta para essa pergunta será negativa e este artigo mostrará elementos que nos permitem chegar a esta conclusão.

Colonizadores e colonizados
Em primeiro lugar, devemos ter consciência de que toda colonização é uma relação de dominação, o que implica dominadores (colonizadores) e dominados (colonizados). Portanto, dizer que a colonização realizada por um país foi "melhor" do que a realizada por outro é sempre discutível. Afinal, foi "melhor" para quem? Do ponto de vista do colonizador ou do colonizado?

Para o colonizador, a colonização é um sucesso quando ele consegue explorar as riquezas da colônia e obter lucro com elas. O que é sucesso para o colonizador, pode ser tragédia para quem foi colonizado. Do ponto de vista de todos os povos que habitavam a América na época da chegada de Colombo, todos os colonizadores europeus (fossem eles portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses ou franceses) foram de alguma foram nocivos, seja trazendo doenças, seja escravizando, seja destruindo as culturas indígenas.

Pernambuco sob domínio holandês
Muitos livros e documentários atuais sobre o período em que Pernambuco esteve sob domínio holandês (1630-1654) destacam as realizações de Maurício de Nassau, conde que governou o "Brasil holandês" durante sete anos, de 1637 a 1644. As realizações mais lembradas nesses livros e documentários são o fato de Nassau ter permitido a liberdade religiosa para católicos e judeus (apesar da oposição de alguns compatriotas seus, que eram de maioria protestante), as melhorias feitas na cidade Recife (construção de pontes, calçamento de ruas etc.) e de ter trazido artistas e cientistas da Europa para o Brasil, dentre os quais o pintor Frans Post, que retratou as paisagens locais, e o cientista Georg Marcgraf, que estudou a fauna e a flora brasileiras.

No entanto, apesar da importância do trabalho dessas medidas, desenvolver o urbanismo e estimular as artes e as ciências não eram os principais objetivos do governo holandês em Pernambuco. Os objetivos das autoridades holandesas que dominaram parte do Nordeste brasileiro eram controlar a produção e o comércio de açúcar, que, na época, era o principal produto brasileiro de exportação, e o
tráfico de escravos de origem africana no Atlântico Sul.

O lucrativo tráfico de escravos
Esse tráfico era extremamente lucrativo e também estava ligado ao açúcar, pois a mão de obra que trabalhava nos engenhos era formada por escravos. Ou seja, o que moveu a presença holandesa no Brasil foram interesses puramente comerciais. Prova disso é o fato de que as invasões holandesas foram organizadas por uma empresa particular, a Companhia das Índias Ocidentais. Essa empresa tinha a autorização e o apoio do governo da Holanda para atacar e saquear navios e colônias de países inimigos a fim de obter riquezas nos continentes americano e africano.

Vale lembrar que os holandeses atacaram o Brasil durante o período da União Ibérica
(1580 a 1640), quando o rei da Espanha herdou a coroa portuguesa. Isso aconteceu porque o rei dom Sebastião, que morreu em 1580, não deixou herdeiros, aproveitando-se disso, o rei da Espanha, Filipe 2º, que era primo de dom Sebastião, reivindicou o trono português. Assim, o Brasil, que era colônia de Portugal, esteve durante esse período sob o domínio da Espanha, que era rival da Holanda.

A Companhia das Índias Ocidentais também autorizava e apoiava o tráfico de escravos africanos. Esses escravos não eram trazidos apenas para o Brasil, mas também para o Caribe e para a então colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte. Pernambuco era para os holandeses um entreposto para o comércio de escravos. Num relatório enviado para a Companhia das Índias Ocidentais, o próprio Maurício de Nassau afirmava que no Brasil nada podia se fazer sem escravos. Nesse mesmo relatório, Nassau recomendava que se aumentasse a importação de escravos. Por isso, o tráfico de escravos trazidos da África aumentou consideravelmente durante o domínio holandês em Pernambuco.

Holandeses no Suriname e na Indonésia
Após serem expulsos do Brasil pelas forças luso-brasileiras, os holandeses continuaram praticando o tráfico de escravos e explorando a utilização do trabalho escravo em engenhos produtores de açúcar. Desta vez, nas Antilhas. Por causa da concorrência com o açúcar produzido nas Antilhas, o preço do açúcar produzido no Nordeste brasileiro chegou a cair pela metade no período entre 1650 e 1700. No entanto, apesar dessa queda, o açúcar continuou sendo um dos principais produtos exportados pelo Brasil e a sua venda voltou a aumentar a partir da última década do século 18.

Como vimos, o domínio holandês no Brasil foi bem diferente da imagem romântica que se criou em torno dele. Uma imagem tão exagerada que, até hoje, é comum atribuir aos holandeses qualquer construção arquitetônica antiga que chame a atenção, mesmo que tenha sido construída após a volta do domínio português. Por fim, para aqueles que ainda persistem em acreditar que subdesenvolvimento é exclusividade das ex-colônias portuguesas, vale destacar que o Suriname, país que faz fronteira com o Brasil, e a Indonésia são dois exemplos de ex-colônias holandesas. E tanto o Suriname quanto a Indonésia são países sub-desenvolvidos e com graves problemas socioeconômicos.

4 comentários:

  1. Artigo historicamente rico, todavia, penso, deveria conter maior explicação das razões dos ataques dos flamengos ("holandeses") aos interesses portugueses, pois eles procuravam, sim, interferir negativamente em tudo que cheirasse a "espanhol" (durante esse período o Rei era comum aos dois Reinos de Portugal e "Espanha") porque a sua terra, que lutava pela libertação do jugo "espanhol", estava em vias de se tornar independente, que acabou por ganhar formalidade pela Paz de Vestfália (só em 1648). O avô de Mauritius de Nassau foi uma das figuras mais proeminentes nessa luta de libertação, a que o neto deu continuidade. Logo após 1640, data da denominada Restauração da Independência de Portugal, e um ano antes da consolidação da dita, na Batalha do Montijo (em território "espanhol") sob o comando de Matias de Albuquerque, em 1642, Portugal negociou com a já Holanda o fim das hostilidades, pelo Tratado de Haia (Den Haag) em 1641. Coloco Espanha e espanhol entre aspas porque a data da existência deste país como tal é muito controversa. Há historiadores que defendem a tese de que a data da sua formação em 1492 (casamento dos Reis Católicos) não corresponde à verdade histórica, pois havia outros reinos cujos soberanos tinham que se reconhecer uns aos outros. Haveria, portanto, várias Espanhas. A primeira referência escrita que aparece como país Espanha data de 1812 na Constituição de Cádiz. Se eu estiver equivocado, haja quem me contradiga, com argumentos validados por historiadores. Acresce que pessoalmente só considero colonização a brasileiros se eles forem os designados indígenas (índios), porquanto os entretanto lá nascidos (que também são indígenas, embora não habitual e erradamente considerados no Brasil como tal - veja-se a etimologia da palavra -,a meu ver) e descendentes do povo dito colonizador não serão mais, ainda na minha visão, que os continuadores da própria colonização. D. Pedro I (do Brasil) / D. Pedro IV (de Portugal) integrava o séquito de colonizadores, todavia, foi o primeiro Imperador.
    Seria matéria para desenvolver que não é pertinente neste espaço. Um abraço à Nação irmã brasileira.

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  2. Agradeço o comentário, que acho excelente e bem elucidativo. Eu só acrescentaria que os ataques dos holandeses ao “Império Português” não tiveram motivações políticas ou militares: foram, simplesmente, de caráter económico !
    Antes de os Países Baixos do Norte se rebelarem contra o domínio espanhol e antes da formação da monarquia dual ibérica, os produtos que os portugueses traziam do Oriente e o açucar do Brasil, eram introduzidos na Europa através da feitoria que tinham em Antuérpia. Quando Antuérpia se rendeu aos espanhóis e este comércio foi proíbido, os mercadores dos Países Baixos perderam o seu mais lucrativo parceiro comercial e a maior fonte de financiamento da guerra contra Espanha. A sobrevivência da República estava ameaçada pois a pesca e os cereais não seriam suficientes para a manter.
    A solução que encontraram foi apoderarem-se dos locais onde os portugueses se abasteciam. Assim, deram origem à Guerra Luso-Holandesa que duraria até 1663.

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