Países dos leitores

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Acidente de Cristiano Ronaldo e os Belgas

Logo pela manhã recebi uma boa notícia ! Não…descansem os adeptos do futebol. A boa notícia não foi o acidente que Cristiano Ronaldo teve, nem a confirmação de que ele tinha 350.000,00 Euros para comprar um Ferrari que, logicamente, teria de ser comprado no Porto por ser a capital da região da Europa onde há mais Ferraris por metro quadrado.
A boa notícia é que os belgas já têm sentido de humor !....
É sobejamente conhecido que os belgas são o povo mais taciturno e intratável de toda a Europa. Pelo menos, eram. De tal forma que eu achei sempre bem os políticos e os eurofuncionários terem os vencimentos e ajudas de custo que têm porque, só para terem de conviver com um povo daqueles, merecem bem tudo o que recebem. Mas isto veio só a talho- -de-foice…
A notícia que me encheu de alegria e que me arrancou uma boa gargalhada, foi saber que, num blogue belga, o acidente do Ronaldo foi comentado com um acesso de humor pouco habitual nos belgas, o que me deixou não só surpreendido como agradado. Senão, vejam o conselho final que o autor do blogue teve a suprema inspiração de endereçar ao acidentado futebolista :

“ se não tens mãos para tantos cavalos, então passa a andar de burro !...”

Que tal ?... É ou não é uma frase cheia de humor e acutilância ? Nada vindo de um belga me fez rir tanto como esta frase, nem mesmo a imagem, que ainda há pouco tempo vi, do rei Balduíno quando lhe tiraram a espada no ex-congo belga.
Estão, portanto, os belgas de parabéns ou, pelo menos, o autor do blogue.
É de muita gente com espírito de humor como este que o Mundo precisa.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Lusofonia como comunidade de destino

Nos tempos mais recentes temos testemunhado o aparecimento de várias iniciativas lusófonas que, creio eu, têm vindo a tentar colmatar a inacção da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que existe mais no papel do que no mundo material. Entre estas, e outras há, numero o surgimento desta revista, da revista “Nova Águia” e ainda da “Magazine Grande Informação” e a “Afro”, todas elas publicações nitidamente lusófonas. Adicionalmente surgiram também, além da associação que gere esta publicação, o Movimento Internacional Lusófono e o Instituto da Democracia Portuguesa – Instituto este que também tem como bandeira a Lusofonia.Muitos dos membros de todos estes movimentos, entre os quais me incluo de quando em vez devido ao meu cepticismo, acreditam que Portugal e os países lusófonos terão um papel relevante no futuro colectivo do planeta, alguns apontam a já existente CPLP como uma organização que, bem trabalhada, poderá vir a obter o seu relevo internacional nos campos cultural, económico, social e inclusive militar uma vez ultrapassados os traumas existentes entre a antiga potência colonizadora, que foi Portugal, e as antigas colónias, e já é bem a Hora de ultrapassarmos todos esses traumas e construirmos, unidos, uma comunidade de destino comum: a Lusofonia!
Pela minha parte tendo a crer que a CPLP poderá não ser suficiente, como o próprio nome indica aceita somente países e existem nações lusófonas que não possuem nem Estado ou país seu, assim de memória consigo realçar Macau, a Galiza e a Goa portuguesa, e outras certamente existirão uma vez que já ouvi de alguns açorianos, e madeirenses também existirão a pensar da mesma forma, que gostariam que os Açores tivessem uma voz na CPLP, podendo os governos regionais colaborar onde o governo nacional não o faz… mas é uma questão delicada esta, já que acaba por insinuar algumas tendências separatistas. Goa, Macau e Galiza portanto, comunidades lusófonas que não são países, onde se incluem? Poderá a CPLP criar um estatuto para estas regiões de modo a participarem na mesma? Estou em crer que sim (volta e meia sou muito crente).
O mundo avança a um ritmo cada vez mais rápido, a Rússia desperta, o Império americano mantém-se, o Movimento dos Não Alinhados acaba por se ir alinhando, aos poucos, num dos lados… surge-nos a Lusofonia como terceira via, uma comunidade internacional espalhado pelos continentes europeu, africano, americano e asiático.Poderá advir daqui um novo bloco de influência internacional? Uma vez mais, creio que sim, mesmo a nível militar já imaginaram um contingente constituído por militares brasileiros, portugueses, timorenses, moçambicanos, angolanos e etc.? Um bloco de países nitidamente desfavorecidos e tidos, a Ocidente, como “terceiro-mundistas”, países que, como um todo, contam com uma riqueza material e cultural tão diversa quanto única, todos diferentes mas com uma língua que os une.Estaremos prontos para auxiliar na construção deste comunidade de destino? Por mim, desde já, digo Presente!
Publicado no terceiro número da revista electrónica Sem Correntes, propriedade da Associação Portuguesa de Cultura Afro-Brasileira.

Conversa com MIA COUTO

Por Fábio Zanini*


Mia Couto é um dos mais conhecidos escritores africanos da actualidade. Moçambicano da Beira, 53 anos, filho de portugueses (branco, portanto), já foi comparado a Guimarães Rosa e aparece frequentemente na lista de possíveis vencedores do Nobel de Literatura (provavelmente não para breve, no entanto, já que Mia ainda é relativamente jovem e a língua portuguesa ganhou recentemente o prémio com José Saramago).
Ele me recebeu em seu escritório no centro de Maputo, há duas semanas. Na verdade, peguei uma boleia com meu amigo Leonencio Nossa, repórter de O Estado de S. Paulo, que havia marcado a entrevista e me convidou para acompanhá-lo. Eu confesso que não conheço nada da obra desse sujeito baixinho e franzino, piadista e hiperactivo, que já tem 20 livros publicados, todos tentando decifrar a alma moçambicana.
Deixei toda essa parte literária para o Leo perguntar. Mas esse escritor também é um analista muito interessante da sociedade e da política africanas, e suas opiniões eu resumo a seguir.
Logo no início, me estranhou o local onde nos encontrámos. Que lugar era aquele?, perguntei. Era a sede de uma consultoria de projectos ambientais, da qual o biólogo Mia Couto é director. “Não sou apenas escritor, também faço coisas sérias”, afirmou, para quebrar o gelo.
Sentámos numa mesa de madeira enorme e nos pusemos a prosear.
De cara, deu para perceber que Mia é um intelectual que não se conforma com velhos estereótipos e ideias pré-concebidas sobre o continente em que vive. “A África ainda é vista pelo mundo como uma coisa exótica, de um velho contando histórias perto de uma fogueira, dos feiticeiros, dos curandeiros”, disse. Essa, segundo ele, é uma imagem que ignora 50 anos de independência africana, de urbanização dos países, industrialização e formação de algumas das mais barulhentas metrópoles desse planeta (tente contar histórias ao redor de uma fogueira em Lagos, na Nigéria, ou Kinshasa, no Congo, por exemplo...) . Muito pouco de bucólico, portanto.
O pior, diz Mia Couto, é que essa imagem é o pilar sobre o qual os africanos construíram suas sociedades. “É alguém que se olha para o espelho, mas esse espelho foi inventado por outro”.
Num continente em que se culpa até dor de dente na colonização, como faz Robert Mugabe no vizinho Zimbábue, o escritor moçambicano pede que sejam estabelecidos limites sobre o quanto pode ser debitado na conta da história. “Esse argumento do passado, essa posição vitimista de que a história é contra nós, está saturado. Não se pode pensar que é tudo derivado da herança colonial. Esse discurso tem de terminar”, diz ele.
Moçambique é um país considerado modelo de crescimento, democracia e estabilidade na África, mas Mia Couto é um intelectual inconformado. Reconhece os avanços, mas mostra uma certa melancolia.
“No fim da guerra, em 1992, tínhamos a crença de que éramos capazes de construir tudo. Fizemos paz, um sistema político aberto, multipartidário, e algumas coisas estão mudando. Temos liberdade de imprensa, de pensamento. Mas há outras coisas que são tristes. Nós pensávamos que iríamos inventar um país com um sistema próprio, fundamentado na cultura moçambicana. E agora percebemos que temos um país como outros. Só temos um nome diferente”, afirma ele.

É um paradoxo o que Mia Couto enxerga: para ser um modelo de estabilidade, foi preciso adoptar modelos importados que tornam todos os países mais ou menos iguais (reformas macroeconómicas inspiradas pelo FMI, por exemplo). O que vale mais, as vantagens da previsibilidade ou a tristeza da padronização?
Mia Couto é também visto como um rebelde, mas, talvez pelo peso da idade, isso tem seus limites. Ele ameaçou se rebelar contra o acordo ortográfico que vai vigorar a partir do ano que vem e padronizará (mais uma padronização...) a língua portuguesa nos oito países que a adoptam oficialmente. Mas desistiu: vai-se submeter à regra, embora continue crítico dela. “O mais perigoso é que está se criando uma ilusão de que é por essa via que se cria proximidade entre as literaturas dos países lusófonos”.
E o Brasil? Mia é um adorador assumido do nosso país, e viaja para cá sempre que pode (virá de novo em Dezembro para um seminário). Pergunto a ele se a presença crescente de empresas brasileiras em Moçambique não pode ser vista como uma nova forma de colonialismo. Ele responde de forma surpreendente. “Nós adoraríamos ser colonizados pelo Brasil. A única maneira de ser independente é ser dependente de vários”.
Por ali, como em todos os cantos do mundo, também se vê muita novela da Globo. Ele não gosta, mas é voto vencido em casa. “No horário das novelas, eu tenho de ir para o computador, sou expulso da sala pelo resto da família”. Pior, diz ele, é a imagem distorcida do Brasil que é passada. “Muitos moçambicanos conhecem apenas o Brasil das novelas, esta máscara que se apresenta”.
A entrevista vai terminando e pergunto por que raios ele tem uma empresa de consultoria ambiental? Mesmo com todo seu renome não consegue viver só da literatura? Ele diz que conseguiria, mas que não quer.
“Eu posso confessar que hoje já conseguiria sobreviver razoavelmente como escritor. Mas não quero, por várias razões. A escrita é uma paixão total, quero manter com ela uma relação lúdica, em que não dependa dela para ganhar dinheiro”.

in SAVANA