Países dos leitores

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sábado, 8 de janeiro de 2022

 

                         A  ORIGEM  DAS   LARANJAS  E   DO  SEU  NOME

 

 

Em 1498, Vasco da Gama informou que em Mombaça havia encontrado laranjas muito melhores do que as de Portugal ( A. Herculano: Roteiro da viagem de Vasco da Gama en MCCCCXCVII. Imprenta Nacional, Lisboa 1861. Citado em Ramón-Laca, 2003.)
Referia-se, lógicamente, às "laranjas doces" em comparação com as "laranjas amargas" que eram as que, à época, se conheciam na Europa e Médio Oriente.
A "laranja doce", que era aquela a que Vasco da Gama se referia, foi trazida da China para a Europa pelos portugueses no Séc.XV e a primeira plantação de laranjeiras foi feita em Portugal cerca do ano 1500.
 
Destaco a citação de Vasco da Gama para recordar que uma palavra nem sempre quer dizer a mesma coisa.
Isto, porque um cronista no prestigiado sítio Sapo, afirmou, há pouco, numa das suas crónicas, que a palavra "laranja" teria sido uma das palavras "emprestadas" pela língua persa. Se o autor quisesse ser mais preciso deveria acrescentar que, na Pérsia, o termo só era usava para designar as laranjas amargas, porque os persas quando conheceram as laranjas doces deram-lhe o nome de "portuguesas".

Esta singularidade não é exclusiva da Pérsia, porque o fruto a que nós chamamos laranja chama-se "portuguesas", não só na Pérsia mas, também, em todos os países dos Balcãs, Albânia, Bósnia-Herzegovina,  Bulgária,  Croácia,  Grécia, Macedónia,  Moldávia,  Roménia, Eslovénia, Sérvia e Montenegro e ainda na Turquia e na Itália, em alguns dos seus dialetos.
Em Francês, em Alemão, em Inglês e em Niederlandês, o nome da laranja foi alteradu, mas isso ficará para próximas crónicas.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

-" O Bairro Português de Malaca (Malásia) "

Malaca foi a porta da Europa para o Oriente e um centro mercantil onde os portugueses criaram um importante entreposto comercial nos séculos XVI e XVII. Pelo estreito de Malaca cruzavam-se todas as rotas entre a Índia e o Sudeste Asiático.
Malaca ocupou um lugar de relevo na história ultramarina portuguesa a par de Goa e Ormuz desde a sua conquista em 1511 por Afonso Albuquerque. Foi um importante elo do "Império em Rede" português (um chokepoint, em linguagem moderna) de onde partiram várias expedições, entre elas a que chegou à ilha de Samatra, no arquipélago das Molucas, hoje Indonésia. Além da feitoria, os portugueses construiram uma fortaleza tão imponente que ficou conhecida como “A Famosa”, da qual ainda resta a porta (fotografia abaixo; fazer clique na foto para ampliar).


Malaca era uma cidade cobiçada e os holandeses (com o apoio dos, ao tempo, seus aliados ingleses)  aproveitando o estado de guerra em que se encontravam com o rei de Espanha que, por azar, também era o rei de Portugal, conquistaram-na em 1641.

Os portugueses perderam Malaca mas deixaram lá uma herança tão forte que, apesar da presença holandesa e mais tarde inglesa, perdura até hoje.
No Bairro Português de Malaca os “Portugueses de Malaca” falam o Papiá Kristang, o dialecto nativo onde abundam palavras do “português antigo”. A comunidade teima em resistir ao esquecimento, debatendo-se pela conservação dos costumes, das tradições e das festas religiosas como San Juang e San Pedro. Porém, a preservação destas memórias está em vias de desaparecer. O pouco “do falar português” tem os dias contados. A geração mais nova limita-se a aceitar os apelidos de origem portuguesa mas não fala o português nem o Papiá Kristang. É com pesar que os mais velhos testemunham o diluir das histórias que os seus antepassados deixaram, assim como, o diluir de um idioma incapaz de resistir à supremacia da língua Inglesa.
Apesar de tudo, tem sido extraordinária a forma carinhosa como o Governo da Malásia tem tratado esta comunidade e a memória da presença dos portugueses, do qual pequenas provas são as fotos que se juntam. 

( Réplica de Nau portuguesa onde se encontra instalado um museu recordando a presença

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

"CIRCUM-NAVEGAÇÃO": a viagem que não devia ter acontecido !

 MAIS  UM  EQUÍVOCO  DA  HISTÓRIA


Fernão de Magalhães

Contrariamente ao que nos ensinaram  ( e continuam a ensinar ), a viagem de Fernão de Magalhães nunca teve a finalidade de provar que a Terra era redonda. 

A esfericidade do nosso planeta é conhecida desde a Antiguidade Clássica e ninguém com um mínimo de cultura a punha em causa.

A verdadeira causa da viagem foram os avultados lucros que os portugueses obtinham com as especiarias originárias das Ilhas Molucas, que provocaram a cobiça de Carlos V, o semi-falido imperador do Sacro Império Romano-Germânico que por heranças se tinha tornado rei de Itália, Aragão, Castela, Áustria, Países-Baixos e outros.

Esta cobiça encontrou eco em Fernão de Magalhães que, segundo parece, estava na posse de documentação que lhe permitia aceitar que as Ilhas Molucas se situavam no hemisfério castelhano, segundo o Tratado de Tordesilhas. Magalhães viu aí a sua oportunidade e apresentou a sua teoria a Carlos V, que a aceitou.

O objetivo da viagem era chegar às Ilhas Molucas por Ocidente, constatar a sua verdadeira localização e regressar pelo mesmo trajeto sem violar o hemisfério português. 

Fernão de Magalhães, consciente das dificuldades que iria encontrar, soube rodear-se, na planificação da viagem dos melhores cientistas portugueses no campo da Física, da Cosmografia e da Astronomia, o que lhe permitiu ficar com um conhecimento muito  próximo da realidade.

Mas nunca Magalhães pensou que ao chegar às Filipinas iria constatar que as Ilhas Molucas se situavam no hemisfério português e que a viagem tinha falhado o objetivo.

Apesar disso, não se pode ignorar o feito extraordinário que foi navegar em linha reta no Oceano Pacífico (a que deu o nome) e a sua contribuição para alargar o conhecimento da humanidade.

Ainda hoje não se sabe o motivo porque Magalhães navegou de ilha para ilha, nas Filipinas, durante 45 dias acabando por se expor numa batalha que o vitimou. Há historiadores que aceitam a hipótese de ele não ter querido enfrentar a deshonra da derrota e ter escolhido uma espécie de suicídio. 

O feito de Magalhães foi tamanho que os capitães que lhe seguiram, sentindo-se incapazes de fazer a viagem de regresso, preferiram optar pela rota do hemisfério português correndo o risco de serem aprisionados pelos portugueses. 

E foi assim que, como resultante de um fracasso e num ato de desespero, se cumpriu a tão manipulada viagem de circum-navegação.

Uma coisa é certa: Fernão de Magalhães foi um extraordinário português digno de toda a nossa admiração e espero que no próximo dia 27 de abril, em que se comemoram 500 anos da sua morte, saibamos recordá-lo com dignidade.  



segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

«A manipulação do "DIA DA RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA"»

Como foi dito na publicação anterior, um texto de autoria de Vasco Pulido Valente fez com que eu me decidisse a dar a minha contribuição para tentar destruir o logro que foi criado à volta do dia 1 de dezembro de 1640. 



Qualquer pessoa bem informada e bem intencionada (que não é o caso de alguns historiadores e políticos) sabe que a trama urdida à volta do que aconteceu no dia 1 de dezembro de 1640 é obra da máquina propagandista do Estado Novo. Custa-me muito aceitar que os que fizeram o 25 de abril e os políticos que se seguiram não tivessem a coragem e o discernimento  de retirar a esse dia a carga ideológica e dar-lhe o verdadeiro significado. Não havia necessidade de continuar a aproveitar a histórica má vontade dos portugueses contra os espanhóis, porque acima disso havia já motivo suficiente para festejar o dia.

No dia 1 de dezembro de 1640, o que houve foi um Golpe de Estado para substituir o Rei legítimo, que por acaso tinha nascido em Espanha, colocando no se lugar um nobre nascido em Portugal.

Alguma aristocracia portuguesa fica muito mal nesta história, não por aceitar um Rei que, embora com descendência portuguesa, não tinha nascido em Portugal, mas por se ter deixado comprar por Filipe II de Espanha.

Quem já fica melhor nesta história é Filipe II, que além de ser o legitimo herdeiro da coroa portuguesa, pagou fortunas à maioria da aristrocacia portuguesa que se vendeu, e ainda teve que lutar contra os nobres que não se venderam.

Daí a sua célebre frase: "tenho direito à coroa portuguesa porque a herdei, a comprei e lutei por ela".

Além disso, comprometeu-se a respeitar a independência portuguesa e que nenhum cargo em Portugal e no Império seria ocupado por outros que não portugueses. Este compromisso foi cumprido também pelos dois Filipes que lhe seguiram, até ao momento em que Filipe IV de Espanha, III de Portugal precisou de ajuda dos portugueses, em homens e dinheiro, para as suas guerras europeias. Aí, complicou-se tudo, porque os interesses portugueses ficavam em jogo.

Porém, já antes disso existiam tensões e descontentamentos depois da perda de algumas embarções portuguesas que integravam a chamada "armada invencível" e, principalmente, pelos saques que holandeses e ingleses vinham fazendo em várias zonas do Império Português, com a justificação de que eram territórios do rei espanhol com quem estavam em conflito.

Considerando tudo isto, gostaria que os governantes portugueses se deixassem de manipulações e dessem ao dia 1 de dezembro uma designação de acordo com a realidade, tal como, por exemplo,  "Dia da Restauração da Monarquia Portuguesa" o que não tem nada a ver com independência.
Termino com o que Vasco Pulido Valente disse, com muito mais autoridade do que eu: « O "1.º de Dezembro" comemora a ascensão da dinastia de Bragança e não uma putativa independência que não deixara de existir.»



sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A fantasia sobre o 1º de dezembro, dia da "INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL"

 A minha dúvida de se valeria a pena denunciar a mentira que rodeia o 1º de dezembro, "DIA DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL", foi dissipada ao receber, de um esclarecido amigo meu, o texto que Pulido Valente publicou a este respeito, em 2012, e que transcrevo a seguir. Neste sentido, irei aprofundar este tema em reflexões a publicar em breve.

«Convém lembrar que Portugal nunca esteve, como se costuma dizer em prosa patriótica, "sob o domínio de Castela" ou, se preferirem, "sob o domínio de Espanha". O arranjo de 1580 não passou de uma "união pessoal" da coroa portuguesa com a coroa de Castela (ou de Espanha) na pessoa de Filipe II, que era o herdeiro legítimo das duas. Como se vê, nada que nos separasse na Europa do Império Austríaco ou do Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Gales. De resto, a ordem jurídica portuguesa não mudou, nem a organização da Igreja, nem a defesa do Império, nem a carga fiscal que anteriormente se pagava. Só quando o conde-duque de Olivares nos pediu mais dinheiro e um pequeno contigente de soldados para a guerra europeia, o espírito patriótico da nobreza indígena finalmente acordou e resolveu instalar D. João IV num trono contestável e periclitante. O "1.º de Dezembro" comemora a ascensão da dinastia de Bragança e não uma putativa independência que não deixara de existir.»

Vasco Pulido Valente (Público, 5 de Fevereiro de 2012)